Que tal um brechó?

*Patricia Saito

E começa mais um ano. Tempo de esperanças renovadas, planos e disposição para fazer tudo aquilo que não foi feito nos 365 dias anteriores. Tem gente que consegue dar uma ‘esticadinha’ nas férias. Outros já começam a pensar nas próximas férias. E também é a época das liquidações em quase todos os estabelecimentos comerciais. Aquele produto ou aquela roupa que você não comprou para o Natal ou Ano-Novo pode chegar até metade do preço, deixando a gente com aquela sensação de que poderia ter esperado um pouco mais para poupar o bolso e fazer o dinheiro render mais.

Quem praticou os três “R’s” no guarda-roupa (Ver artigo Reduzir, reutilizar e reciclar, na seção Fashion News) está com espaço de sobra e, agora, com tudo mais organizado pode ir preenchendo aos poucos com itens que realmente vão ser bem utilizados para enfrentar o calor escaldante ou o frio extremo. Ou até uma mistura dos dois porque com as mudanças climáticas poderíamos dizer que estas variações vão se tornando cada vez mais frequentes. Muitas vezes, elas ocorrem em um único dia.

As chamadas “fast fashion” (termo utilizado para lojas de departamento que mudam suas coleções num ritmo frenético) estimulam o consumo do que é tendência, com preços populares que colaboram para democratizar a moda. Por outro lado, nem sempre são sinônimos de qualidade e estilo porque a peça é feita para durar menos e é reproduzida milhares de vezes. As chances de encontrar outras pessoas vestindo a mesma roupa que você são grandes. E daí é preciso entrar em ação a dupla criatividade e personalidade para montar os próprios looks sem parecer um catálogo de loja ambulante.

Neste sentido, sempre penso nos brechós como uma boa opção para sair da mesmice – e além de tudo ser sustentável. Em geral, são peças exclusivas, de boa qualidade e com preços ótimos. Li uma matéria que destaca que na Europa e nos Estados Unidos, os brechós são uma febre. Especialmente em cidades como Londres, em que há uma liberdade no ato de vestir e o vintage está associado ao fashion. Claro que ainda existem alguns estigmas. A antropóloga e diretora de Pesquisa da Mindset/WGSN, Ligia Krás, em artigo para a revista Think & Love (agosto/2010), cita alguns: medo de doenças, medo da peça ter pertencido a alguém que já morreu ou ter energias de outras pessoas e a questão de status por ser uma roupa considerada de segunda mão. Mas ninguém pode negar de que se trata de uma atitude sustentável só pelo fato de não exigir recursos extras para a produção de novas peças.

Existem muitas discussões a respeito de como é possível unir a moda ao conceito de sustentabilidade. E me incluo no grupo que quer buscar alternativas para que isso não signifique apenas marketing de empresas ou uma onda passageira. Não se trata de acabar com o consumo, mas fazê-lo sempre de maneira mais consciente. Despir-se dos preconceitos e conhecer um brechó pode ser o primeiro passo. Você pode se surpreender com o que vai encontrar lá e ainda ganhar em autenticidade no seu guarda-roupa.

Patricia Saito é jornalista e escreve sobre moda e sustentabilidade para o blog Costura Sustentável

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