A indústria da moda e o trabalho escravo na cadeia de produção

*Por Patricia Saito

Imagine a seguinte situação: você compra uma peça de roupa desejada há tempos numa loja de departamento famosa, destas que têm filiais em várias cidades e propaganda com sua artista favorita na televisão. O preço está baixo e você não tem dúvida de que fez a melhor escolha. Dias depois, vem a notícia. A mesma loja foi flagrada com trabalho escravo na sua cadeia de produção. Ou seja, a roupa que você comprou pode ter sido produzida por pessoas em péssimas condições de trabalho. Ao saber desta informação, como você se sente?

Uma sensação imediata é a da culpa por ter consumido algo que foi fruto do sofrimento de alguém. Outra é a da indignação, já que a loja – conhecedora ou não da situação – poderia ter criado mecanismos para garantir o trabalho decente entre seus fornecedores. A terceira possível é a da punição. Você decide que não vai comprar mais daquela loja, talvez nem mais da concorrente, já que não tem maneiras de ter informações precisas sobre a procedência das peças produzidas. No fim, a vantagem do preço baixo cai por terra se não estiver arquitetada com critérios sociais e ambientais.

Esta situação é hipotética, mas infelizmente não está distante de nossa realidade. O trabalho escravo contemporâneo, como é atualmente chamado, contempla necessariamente o cerceamento à liberdade e as condições de trabalho oferecidas (alojamento, alimentação, saneamento, entre outras). Último levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2005, estimava em 12 milhões o número de vítimas de trabalho análogo ao escravo em todo o mundo, sendo 25 mil no Brasil.

A ONG Repórter Brasil divulga periodicamente notícias sobre fiscalizações do Ministério do Trabalho que, não raro, envolvem a indústria têxtil. Os personagens são, em geral, costureiras e imigrantes bolivianos. A maioria trabalha para pagar comida e, no caso de estrangeiros, passagens para o Brasil. As jornadas de trabalho são exaustivas, envolvem violência física e moral e não dão direito sequer a banho quente. E quem pensa que essa situação só acontece em fazendas, está enganado. Uma oficina com este perfil pode estar mais perto do que você imagina.

Certamente num assunto tão grave como este não é responsável fazer generalizações. Há, inclusive, movimentos recentes de empresas do setor que estão tentando mapear a sua cadeia de produção para impedir a exploração de trabalhadores. Desde setembro de 2010, a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) vem desenvolvendo um programa com o objetivo duplo de permitir às empresas signatárias qualificar e monitorar os fornecedores quanto às boas práticas de responsabilidade social e relações de trabalho. O esforço é válido, mas ainda tímido diante de uma indústria que emprega 1,65 milhão de pessoas e com tamanho impacto e importância na economia brasileira.

Vale destacar que para o caso específico do trabalho escravo o consumidor ainda não tem um selo ou informações que o permitam escolher um produto em detrimento de outro. Neste caso, cabe às empresas garantir que a nossa compra é de origem confiável e que o preço por vezes baixo de uma peça não significa situação irregular.

Patricia Saito é jornalista e escreve sobre moda e sustentabilidade para o blog Costura Sustentável

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