O perfil do consumo no Brasil e a sustentabilidade

Por Patricia Saito

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) acaba de disponibilizar em seu site (www.abit.org.br) os primeiros dados da Pesquisa de usos, hábitos e costumes do consumidor. Realizada em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a pesquisa envolveu consumidores de diversas cidades (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Salvador) e teve como objetivo mapear quais são os novos padrões de consumo dos brasileiros.

Alguns dados chamam atenção e podem ser relacionados com alguns dilemas que a indústria têxtil irá enfrentar no caminho para a sustentabilidade. Por exemplo, foi levantado que 27,1% dos entrevistados costumam olhar a etiqueta das peças para saber a origem dos produtos. Ainda que seja um número baixo, é perfeitamente aceitável tendo em vista que atualmente – no Brasil – não existe nenhum sistema que permita garantir que o que se compra não envolveu trabalho escravo na cadeia produtiva. A avaliação que faço é que o consumidor só terá um estímulo para conferir etiquetas de roupas quando ele tiver instrumentos e informações que permitam punir ou premiar determinada empresa.

A indústria da comunicação é vital para a mudança de comportamento do consumidor. Três dados estão intimamente ligados a este segmento: 47,5% dos entrevistados já compraram produtos de moda por causa de propagandas; a televisão é apontada como principal fonte de informação de moda, com 72%; e a maneira de se vestir das personalidades influencia 62,2% dos entrevistados. Isso talvez explique porque o chamado merchandising social – utilizado nas novelas – traz tantos resultados. E se a televisão se tornar uma aliada desta causa, o processo pode se acelerar muito porque não existe melhor meio de disseminar e facilitar a tradução de conceitos e assuntos delicados e/ou complexos.

Por último, e não menos importante, a pesquisa identificou quais são as características que são consideradas no momento da compra: conforto, bom preço, qualidade e durabilidade. Os dois primeiros itens não chamaram a atenção, pois são os que mais aparecem como critérios para escolher um produto em detrimento de outro, mas os dois últimos estão na contramão do que, em geral, está sendo oferecido pelas lojas fast fashion. Claro que não podemos generalizar, mas muitas roupas são quase que descartáveis e não duram mais de uma temporada. Ver o consumidor valorizando qualidade e durabilidade é um bom sinal, inclusive para as estratégias que a ABIT quer desenvolver para combater o consumo dos importados.

Patricia Saito é jornalista, consultora de moda sustentável e escreve no blog Costura Sustentável (www.costurasustentavel.wordpress.com )

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