Marcas mais limpas

O que começou em Julho como um desafio da Greenpeace para persuadir as marcas e retalhistas de moda a eliminarem as descargas de produtos químicos nocivos nas cadeias de aprovisionamento, tem ganho novo impulso. De tal forma que acreditam na potencialidade dos seus esforços terem um impacto global

No espaço de apenas quatro meses, nomes de referência como Adidas, C&A, H&M, Li Ning, Nike e Puma não só entraram a bordo do chamado desafio Detox, como também concordaram em trabalhar juntos no que descrevem ser uma «colaboração capaz de alterar as regras do jogo».

Entre eles compilaram um «roteiro» conjunto delineando as medidas que tencionam tomar para alcançar a meta de zero descargas de substâncias químicas perigosas nas suas cadeias de aprovisionamento até 2020. A iniciativa, segundo eles, define um novo padrão de desempenho ambiental para os sectores de vestuário e calçado global e ajudará a proteger o meio ambiente para as gerações futuras.

Não há dúvida que, trabalhando juntos, estão a fazer um progresso muito maior em relação aos seus objectivos do que se avançassem sozinhos. Como a Puma salienta «ao colaborarmos, podemos unir forças, reunir recursos e desenvolver um entendimento comum e um roteiro básico, que depois podem ser implementados nos nossos fornecedores directos e na indústria química».

Apesar das acções das seis empresas serem louváveis, estas têm também sido confrontadas com provas contundentes contra elas. O relatório “Dirty Laundry” da Greenpeace constatou a existência de substâncias químicas tóxicas nas descargas de águas residuais provenientes de duas instalações de processamento de têxteis na China, responsáveis por fornecer empresas de vestuário globais. O documento refere que os produtos químicos encontrados na Youngor Textile City Complex e na Well Dyeing Factory, junto dos deltas do rio Yangtze e Pérola, incluem «disruptores hormonais persistentes e bioacumulativos que representam ameaças de longo prazo ao meio ambiente e à saúde humana».

O documento referiu que nenhuma das empresas envolvidas possuía implementadas as políticas necessárias para dar-lhes uma visão completa dos produtos químicos utilizados e libertados em toda a sua cadeia de fornecimento – e desafiou-as a definir uma política da “zero descargas” para os seus fornecedores.

Em resposta, as seis empresas de vestuário e calçado estão agora a preparar-se para mudar a forma como os produtos são fabricados em todo o mundo. E o documento conjunto, divulgado no final de Novembro, estabelece alguns dos desafios que enfrentam nos próximos anos.
As empresas detêm poucas das fábricas e fornecedores que fabricam os seus produtos, trabalhando com milhares de fabricantes contratados directamente, dezenas de milhares de fornecedores de materiais e em cada um destes são utilizadas centenas de produtos químicos individuais.

Como se isso não bastasse, as marcas e retalhistas globais possuem uma visibilidade limitada nas formulações químicas utilizadas pelos fornecedores – especialmente os ingredientes perigosos – e salientam que as marcas nunca tentaram controlar directamente as formulações químicas utilizadas no extremo da cadeia de fornecimento por fornecedores dos fornecedores.

Outros desafios incluem o grande volume de água utilizada em tinturaria, acabamentos e outros processos, e o facto de o tratamento de águas residuais variar entre unidades. Existem também as barreiras de importação e exportação para produtos químicos e tecnologias, que terão de superar.

Inicialmente vão ser realizados projectos-piloto em grandes fornecedores de vestuário verticalmente integrados e tinturarias, entre 2011 e 2013, para obter uma melhor compreensão do âmbito da utilização e descarga de produtos químicos perigosos. As instalações piloto serão na China, Filipinas, Taiwan, Bangladesh, Tailândia, Índia e Indonésia, com os resultados a serem posteriormente associados ao calçado e outros produtos. A partir de 2012 e até 2013, a focalização será na produção têxtil.

Nove classes de produtos químicos perigosos estão actualmente restritos em todos os produtos vendidos pelos seis retalhistas e marcas. Por isso os projectos serão destinados a verificar a sua ausência nas águas residuais ou nas lamas. Estes são os ftalatos (orto-ftalatos), retardadores de chama bromados e clorados, corantes azo, compostos organoestânicos, clorobenzenos, solventes clorados, clorofenóis de cadeia curta parafinas cloradas (SCCP) e metais pesados (cádmio, chumbo, mercúrio, cromo).

Em meados de 2013 será desenvolvido um plano de acção para eliminar qualquer um dos nove produtos químicos que for encontrado. Existem ainda medidas de acção planeadas sobre outros grupos químicos utilizados em processos de produção de têxteis e curtumes, as quais serão implementadas com prazos específicos.

Prevê-se que um inventário de todos os produtos químicos usados na fabricação de vestuário seja iniciado até final de 2012 e uma lista de âmbito sectorial de produtos químicos perigosos estabelecida no ano seguinte. As listas também serão usadas para identificar alternativas (ecológicas) em formulações químicas que estejam actualmente disponíveis (tais como adesivos e tintas à base de água).

Outras medidas incluem a divulgação dos resultados de todos os estudos realizados como parte deste compromisso e a elaboração de relatórios regulares e públicos sobre progresso, com periodicidade trimestral em 2012 e anual de 2013 a 2020.

Fonte: Portugal Têxtil

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