Entrevista Dario Caldas – Projeto Contem

Reproduzo a seguir a excelente entrevista feita pelo Ricardo Oliveros, do projeto Contem, com o sociólogo Dario Caldas (Observatório de Sinais).

Lembrando que aqui no Costura Sustentável também vamos ter em breve uma seção só de entrevistas incríveis sobre a relação entre a moda e a sustentabilidade!

Dois eventos sobre a relação entre a moda e sustentabilidade aconteceram em setembro nas cidades de São Paulo e Paraty. Um foi a SP ECOERA criado pela Chiara Gadaleta Klajmic, e o Paraty Eco Fashion produzido por Bernadete Passos. A questão “como a moda pode ser sustentável” estava no centro da pauta dos dois eventos. Para falar sobre o assunto, entrevistei o sociólogo Dario Caldas doObservatório de Sinais.

Um dos cenários de futuro possíveis para a moda e para sociedade é a questão da sustentabilidade. O Sr. no artigo da Folha de São Paulo, “Consumo sustentável, contradição em termos”, desconstruiu a definição dos termos consumo e sustentável. Como vê no futuro a relação entre moda e meio ambiente?

Essa é uma das questões mais espinhosas que a moda terá que resolver nos próximos anos. Mas não só ela: a economia como um todo está migrando, paulatinamente, para a chave do desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo um imperativo e uma nova fronteira de expansão para o próprio capitalismo. O caso da moda é particularmente complicado porque ela sempre foi sinônimo de mudança, de aceleração e de consumismo – valores que são antípodas aos pregados pela sustentabilidade. É por isso que, a rigor, a expressão “moda sustentável” é uma contradição nos próprios termos. Mais coerente, por outro lado, é pensar em diminuir os impactos da indústria da moda sobre o ambiente e adequar a produção ao desenvolvimento sustentável. No que concerne ao meio ambiente e à responsabilidade social, o setor têxtil-vestuário global ainda é responsável por alguns dos piores “pecados”, desde o despejo de efluentes altamente poluidores nos rios, através do tingimento, até frequentes acusações de trabalho escravo ou semiescravo na confecção. Assim, há uma extensa agenda a cumprir. Será necessária uma inversão maciça de investimentos para renovar maquinários e instalações de modo adequado ao ambiente. Mas esse, do meu ponto de vista, é o aspecto menos preocupante, pois interessa a todos e depende apenas de tempo e de investimento, que o aparato legal vai também, aos poucos, induzir.

É verdade que o fast fashion se impôs, mas é inimaginável que esse sistema de produção industrial possa se perpetuar sem contrapartidas sustentáveis cada vez mais palpáveis. A questão é: nesse sistema que tem no consumo acelerado um de seus princípios básicos, como abrir mão de produtos feitos para durar menos do que a quantidade de prestações em que serão pagos?

Sim, porque, apesar de todo o discurso da qualidade que fazem as marcas de fast fashion, especialmente as brasileiras, o consumidor sabe perfeitamente quantas lavagens a sua roupa aguenta. Por outro ângulo, será que mega-eventos, que se montam e desmontam em uma semana, serão admitidos (ainda que prometam zerar a sua emissão de carbono), quando o paradigma da sustentabilidade tiver se tornado dominante? Portanto, muito mais desafiador – insisto nesse ponto – será a moda repensar os termos de seu próprio funcionamento como sistema, ao ter frontalmente questionado o papel simbólico que representou, nas últimas décadas, para a cultura de consumo. Essas reflexões indicam que o buraco da moda, quando se fala de sustentabilidade, é bem mais embaixo, não se limitando ao uso de materiais orgânicos ou a parcerias à base de fair trade – ainda que esses aspectos também façam parte do pacote.

O Sr. arriscaria uma visão do futuro da moda para os próximos 15 a 30 anos?

O modelo fast fashion ainda tem muito espaço para expansão, devido ao aumento da população, principalmente das classes de baixa renda, que, nos países emergentes, estão tendo acesso ao consumo só agora. Mas ele já está sob forte questionamento, uma vez que se concentra em meia dúzia de grandes players vencedores globais, causando fortes prejuízos à indústria da moda e ao varejo locais de um país. Ao mesmo tempo, o consumidor mais avançado e antenado começa a dar mostras de que está se cansando dessa urgência, dessa histeria de moda que o modelo fast fashion propõe e entrega. Há outro tipo de sensibilidade emergente que quer menos imposição de tempos e de tendências estandardizadas. Uma sensibilidade mais conectada com valores culturais slow – leia-se: menos aceleração, mais sustentabilidade, menos consumismo, menos “rolo compressor” de lojas cada vez mais homogêneas e entediantes. Um consumidor que quer ter uma relação mais natural com a moda e com sua aparência, que quer um produto mais emocional, mais memorável, que ele evidencia por sua preferência pelos básicos, pelos clássicos, pela moda do vintage. Esses fatores, associados à crise global, dão espaço para o surgimento de um novo modelo de funcionamento da moda, em que, num primeiro momento, as grandes cadeias varejistas de fast fashion coexistem com outro modelo de empresa: menor, mais flexível, intensivo em criatividade e em tecnologia, com produção mais localizada. Assim, os produtos deverão falar cada vez mais a língua da qualidade e da durabilidade, e cada vez menos a do descarte imediato. Também haverá um enorme crescimento da demanda por experiências de compra e por roupas diferenciadas, produzidas em séries menores, mas nem por isso com menos agilidade e rapidez de entrega, ou com menos apelo de moda. A moda será cada vez mais fragmentada – um processo que começou no final do século XX e tende a se aprofundar – funcionando em um sistema de patchwork, em que todas as posições (isto é, todos os segmentos, os tipos de produtos, as cores, as tendências…) deverão estar simultaneamente disponíveis no mercado, ou entrar em produção de forma ágil e imediata (o que a integração das tecnologias de informação e comunicação aos sistemas produtivos está concretizando), a partir das demandas cada vez mais individualizadas dos consumidores. Mas, veja bem, isso não quer dizer que as tendências de massa, dessas que pegam todo mundo de roldão – do tipo “brilho e transparência” – vão deixar de existir. Ao contrário, elas serão cada vez mais massivas e instantâneas – algo como modismos globais que vão surgir e desaparecer em uma semana. No meu entender, esse novo sistema dependerá menos da figura do “grande criador”, que teve o seu apogeu no século XX. O criador teve o seu papel associado à função de inovação disruptiva – pense em Dior, o exemplo mais completo, que mudava tudo de seis em seis meses. O modelo do século XXI está mais para uma combinação de inovações marginais (pequenas transformações que a moda propõe, olhando muito mais para o retrovisor do que para o futuro) com permanências (a ideia do patchwork, acima). Isso vai abrir espaço, como disse antes, para uma grande quantidade de “criativos”: pequenas marcas, estilistas e indústrias menores, com produção local. Por outro lado, outra direção da inovação será pela via da tecnologia. Acho também que a moda do século XX foi muito baseada em estilo e imagem, no século XXI a tecnologia e a engenharia serão novamente os principais indutores de inovação, além da sustentabilidade – mas aí estamos falando de um nível de grandes empresas têxteis, intensivas em capital, e de países que estão investindo muito em pesquisa, o que infelizmente não é o caso brasileiro.

Dario Caldas é sociólogo e diretor do Observatório de Sinais, escritório de consultoria em tendências de comportamento, sociedade e consumo, baseado em São Paulo.

Imagem: por Mylla

Sobre Ricardo Oliveros

É arquiteto por formação, jornalista por ocasião, curador por exposição, performer por paixão e acredita desde os 10 anos que pode mudar o mundo.

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