A escravidão e a roupa que nós usamos

Fiscalização MP

Fiscalização MP

E semana passada tivemos SPFW. Mas também tivemos fiscalização do Ministério do Trabalho, Ministério Público e Receita Federal, resultando em novo flagra de trabalho análogo ao escravo na empresa GEP, formada pelas marcas Emme, Luigi Bertolli e Cori.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/03/22/governo-flagra-escravidao-envolvendo-grupo-que-representa-a-gap-no-brasil/

Fonte: Blog do Sakamoto

A reportagem da Folha de SP, aproveitando que ambos os assuntos estavam em evidência, fez algumas entrevistas com o pessoal que circulou pela Bienal para entender como as pessoas conectavam os dois assuntos. Um ou outro mostrou-se interessado nessa relação estabelecida na indústria de moda, o restante não soube explicar:

Essa nova fiscalização na GEP me faz confirmar algumas reflexões:

-O argumento de que as empresas “desconhecem” tal prática na sua cadeia de fornecedores não serve mais como justificativa. Claro que mesmo uma empresa que faz processos sistemáticos de auditoria e controle de sua cadeia pode passar por isso, mas é fato que algumas marcas sabem dessa situação e preferem “fingir” que não sabem. Não seria melhor enfrentar o problema com transparência, dividindo fragilidades e buscando apoio estratégico com organizações e parceiros que podem ajudar?

– O problema não são os bolivianos. Após a última fiscalização do MP em uma empresa do varejo, muitos passaram a ser discriminados como se fossem a única causa. Numa atitude reativa, o mais fácil é colocar a culpa no elo mais fraco, de modo que o negócio não sofra nenhum arranhão de imagem e os bolivianos sejam considerados os “bodes expiatórios”.

– As oficinas de costura fazem, sim, parte da cadeia de produção dessas empresas. São elas que costuram, colocam a etiqueta da marca, fazem acabamento, embalam  e mandam as peças de volta para um intermediário. Em outros casos, enviam direto para as lojas. Para as empresas que alegam que não tem obrigação de criar condições para melhorar a estrutura e gestão das oficinas, fico pensando até que ponto vão continuar crescendo. Até porque daqui a pouco a China deixará de ser barata e o custo da mão de obra vai se deslocar para outros países.  Simplesmente não conseguem perceber a riqueza que é produzir localmente. E o quanto isso pode significar no longo prazo em termos de redução de custos e de impactos ambientais.

– Ninguém quer ficar apontando o dedo somente para as empresas, como se elas fossem as únicas vilãs. Até porque, eu, você e a grande massa de consumidores têm muita responsabilidade nesse assunto também. O que queremos é uma postura mais ética e ativa nesse assunto, de enfrentamento dos desafios e de transparência. O segmento têxtil e de confecções, bem como a indústria da moda, pode ser responsável por uma importante transformação nos nossos padrões de consumo.

– Dentro do pensamento sistêmico da sustentabilidade, tudo está interligado. Então não adianta fechar os olhos para os novos cenários que estão sendo construídos. Pode levar um tempo, mais ninguém, nenhuma empresa ou organização consegue esconder essas relações e suas fragilidades por muito tempo. O mundo da moda está tendo de mudar por pressão, mas deveria pensar como poderia exercer protagonismo nessa mudança.

– Não há fórmula mágica que possa ser aplicada a todos. Mas o primeiro passo é reconhecer que existe um problema e procurar formas corretas de lidar com o enfrentamento do mesmo.

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