O que a Dove, a Abercombrie e a tragédia em Bangladesh revelam sobre o atual momento da moda

Após declarações do presidente, campanha estimula doação de roupas da Abercombrie para moradores de rua

Após declarações do presidente, campanha estimula doação de roupas da Abercombrie para moradores de rua

“É por isso que contratamos pessoas bonitas em nossas lojas. Elas atraem outras pessoas bonitas e nós queremos vender para clientes descolados e de bela aparência. Eu não quero nossos clientes vendo pessoas não gostosas vestindo nossas roupas.” (Mike Jeffries, presidente da Abercombrie & Fitch)

Quando comecei esse post, não sabia se queria escrever sobre a tragédia ocorrida em Bangladesh,  a campanha da Dove “Retratos da beleza real” ou sobre o caso das declarações polêmicas do presidente da Abercrombie & Fitch. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que nenhum desses três assuntos seria mais novidade por aqui porque já foram bastante explorados pela imprensa. Ao mesmo tempo, não pude deixar de atentar para o significado e a conexão entre esses acontecimentos nesse atual momento da moda, de mudanças e desafios em todo o mundo.

“Sinceramente nós vamos em busca de jovens descolados. Nós vamos atrás dos jovens americanos atraentes,  com atitude e seus amigos. Muitas pessoas não pertencem as nossas roupas e não podem pertencer.” (Mike Jeffries, presidente da Abercombrie & Fitch)

A minha primeira reação ao ler as declarações do presidente da Abercombrie foi de revolta. Eu nem conheço direito a marca americana, mas sei que ela é bem aceita, em geral, entre os adolescentes. O posicionamento que eles assumiram  – de não vender mais tamanhos G e GG para não se associarem a pessoas gordas – tem um pouco de tudo, de preconceito, de elitismo, de visão antiquada dos negócios. Mas o que considero de maior valor nessa história toda é a transparência com a qual ela se revelou e a oportunidade que nós, como consumidores, temos para exercer nosso poder de escolha. O que quero dizer é que uma vez munido de informações – como nesse caso – podemos decidir se somos consumidores da Abercombrie ou da Dove, de qual filosofia nos identificamos mais, de quais valores partilhamos. Apesar da polêmica, considerei um avanço ter subsídios para fazer escolhas melhores nas minhas futuras compras. E é justamente isso que devemos exigir das marcas de moda, mais transparência, posicionamento e diálogo.

E o que é o outro lado? Na minha opinião a Dove acertou em cheio com sua campanha “Retratos da Beleza Real” em que pedia para mulheres se descreveram para um retrato falado. A segunda parte envolvia a descrição feita por outra pessoa e no final a comparação das duas imagens. O que foi constatado é que as mulheres se acham mais feias do que realmente são e exaltam mais seus defeitos que suas qualidades. O mais legal é que o vídeo tornou-se um viral na Internet – em abril já tinha mais de 20 milhões de visualizações – e tem um propósito muito mais nobre de reforçar a beleza única de cada mulher, de incluir, estimular o olhar para o diferente. Apesar de não ser uma campanha de moda, acredito que o caminho está em considerar a diversidade como uma base fundamental quando os temas são moda e beleza. Esse é um assunto espinhoso para esse universo, mas não vejo outra alternativa senão colocá-lo em pauta, seja em campanhas, editoriais, desfiles. Já faz tempo que o padrão não existe mais, não é?

Para finalizar, outro assunto que sempre abordamos por aqui e que infelizmente acabou culminando em tragédia foi o das condições de trabalho em Bangladesh. Sim, esse é o tema que atualmente mais se evidencia quando pensamos nas transformações necessárias para a cadeia têxtil e de confecções. Não que não existam outros, mas esse tem características estruturais e globais. As denúncias têm demonstrado que esse é um problema recorrente no setor, de transferência de atividades para países distantes e menos desenvolvidos, em busca de mão de obra barata. Mas até quando os negócios irão funcionar dessa maneira? Até quando as irregularidades precisarão terminar em tragédias para atitudes serem tomadas? Sei não. É preciso coragem, vontade e interesse para fazer acontecer e são poucos os que estão comprometidos com a mudança. Infelizmente.

Tragédia em Bangladesh

Tragédia em Bangladesh

 

Acredito que esses três acontecimentos, quando unidos a partir da ótica das transformações necessárias no universo da moda, são totalmente interdependentes. Eles simbolizam desafios – e em alguns casos oportunidades – de se tentar o novo em um setor que precisa de inovação, inspiração e inquietação!

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