Entrevistas

Entrevista: Gabriel Del Corso

Gabriel Del Corso, diretor do Projeto Contem

Gabriel Del Corso, diretor do Projeto Contem

Gabriel del Corso é diretor geral do Projeto Contem, uma iniciativa brasileira de incentivo ao consumo consciente e de divulgação de práticas sustentáveis nas áreas de moda, arte, design, gastronomia, cinema, criança e música. Nessa entrevista para o Costura Sustentável, del Corso fala de sua trajetória profissional na área de moda e dos caminhos que o levaram a apostar na sustentabilidade como um conceito orientador para sua vida.

Costura: Como começou sua relação com a sustentabilidade?

Del Corso: Começou há quatro anos e meio, em um passeio de lancha, acredita? Mas antes disso minha experiência profissional era como consultor de estratégia em negócios da moda, criando soluções para ampliar o desempenho comercial dos projetos nos quais estava envolvido. Trabalhei 24 anos nesse segmento, passei pelo varejo, pela confecção, tive marca própria e organizei durante sete anos (cerca de 40 edições) o Happy Bazar, evento que reunia grandes marcas nacionais e internacionais e que por volta de 2003 estava vendendo cerca de 30 mil peças. Ali eu já estava sinalizando um interesse por dar um destino mais nobre a peças que não haviam sido vendidas, mas sem conectar isso com a ideia de sustentabilidade. O Happy Bazar também tinha parte de sua renda destinada a projetos sociais. Também trabalhei no FW House, o salão de negócios do SPFW, e passei uns quatro anos em Londres, com uma atuação focada no mercado de consumo global. Foi a partir dessa experiência internacional que vivenciei mais de perto a questão do reaproveitamento de materiais e quando voltei ao Brasil, algum tempo depois, surgiu a ideia do projeto Contém. Como disse no início do nosso papo, o projeto começou a se desenhar quando aceitei ir a um passeio de lancha com a professora Maria Fernanda Britto Neves, da Unisantos, e tive contato com diversas questões ambientais locais. A partir desse dia, passei a me interessar pelo assunto e um tempo depois surgiu o Contém.

Costura: O que é o projeto Contém?

Del Corso: O projeto Contém foi idealizado por mim e pelo meu sócio, o Claudio Magalhães. É uma iniciativa que está em constante construção e tem como objetivo estimular práticas sustentáveis e o consumo consciente em diferentes áreas de atuação: moda, arte, design, gastronomia, cinema, criança, música. Temos curadores específicos para cada área que são responsáveis por pesquisar soluções sustentáveis. No momento estamos estruturando a Feira de Consumo Consciente, em que pretendemos apresentar produtos e processos inovadores nesse segmento.

Costura: Para qual público o projeto se destina?

Del Corso: O nosso foco é o consumidor final, mas não queremos ser “ecochatos” e, sim, mostrar que existem produtos maravilhosos sendo feitos que consideram critérios de sustentabilidade. Como qualquer iniciativa, enfrentamos resistência do mercado, obstáculos, mas também temos vivenciado momentos especiais como o nosso primeiro estande no Museu Brasileiro de Escultura (Mube) com cinco coleções baseadas nesse conceito. As experiências internacionais também indicam que muitos já entenderam que os recursos são finitos e que precisamos fazer alguma coisa.

Costura: E atuar em diferentes áreas não torna o desafio ainda maior?

Del Corso: Nós acreditamos que a necessidade do mundo vai além de um mercado específico, então precisamos atuar em todos os segmentos nos quais for possível. Se tomarmos Londres como exemplo, encontraremos projetos e produtos em diferentes áreas conectados à questão da sustentabilidade.

Costura: E por falar em desafios, quais as maiores dificuldades encontradas nesse trabalho?

Del Corso: Temos várias, mas destacaria a necessidade de ampliar o conhecimento do consumidor, as questões tributárias do Brasil que não estimulam as empresas a reutilizarem tecidos, por exemplo, e a dificuldade das empresas de entenderem o que essa mudança significa e não apenas oferecerem recursos pontuais com fins de marketing, dentre outras.

Costura: E o profissional que quer atuar nessa área? Vale a pena insistir nessa transformação dos padrões de consumo?

Del Corso: Sim, é um caminho sem volta. É preciso, claro, ter paixão pelo mercado em que se quer atuar, pesquisar, buscar referências e colocá-las em prática no seu dia a dia. Esse tema é muito novo para todos nós, então é importante olhar para o mundo e esquecer-se da maneira tradicional de produção. Os obstáculos sempre irão existir em qualquer área, mas quem quer trabalhar com sustentabilidade precisa, acima de tudo, ter coragem.

Costura: E quem são esses ‘corajosos’?

Del Corso: São alguns que me inspiram como a professora Maria Fernanda (UniSantos), a Eulália Pasquinelli, a consultora Chiara Gadaleta, o jornalista André Trigueiro e a estilista Flávia Aranha.

 

Entrevista: Kate Fletcher

Kate Fletcher, consultora e professora

Kate Fletcher, consultora e professora

Kate Fletcher é consultora e responsável pelo curso de moda e sustentabilidade na London College of Fashion. Nos últimos anos, seu trabalho tem buscado conectar suas ideias na área de sustentabilidade com sua experiência no setor de moda. Em 2012, seu livro “Moda & Sustentabilidade: Design para mudança“, em parceria com a estilista e consultora Lynda Grose, foi lançado no Brasil pela Editora Senac. Na entrevista para o Costura Sustentável, Fletcher fala um pouco sobre sustentabilidade e seus dilemas atuais.

Costura: Qual é a sua definição de sustentabilidade?

Fletcher: Uma moda que promove integridade ecológica e qualidade social através de produtos, prática de uso e relações. Uma visão mais autêntica, flexível e interligada da moda, das pessoas e do mundo. A moda que nos ajuda a participar, unir e entender melhor nós mesmos, os outros e o mundo.Uma moda que  envolva o processo de florescimento da espécie humana e não humana.

Costura: Você acredita que a falta de uma definição mais objetiva sobre o conceito de sustentabilidade atrapalha a sua comunicação?

Fletcher: Não concordo. Uma única definição é improvável que seja significativa para todos.  O que precisamos são narrativas múltiplas que transmitam a natureza complexa e sem limites da sustentabilidade em uma série de maneiras diferentes.

Costura: E qual é o principal dilema da moda sustentável?

Fletcher: O fato das pessoas concentrarem as questões apenas em torno de materiais e tecnologia. Estamos tratando principalmente de comportamento, relações e formas de pensar.

Costura: A indústria da moda está pronta para fazer mudanças no jeito de fazer negócios?

Fletcher: Sim, precisa estar.

Costura: Você tem exemplos de práticas interessantes de empresas na Inglaterra ou em outros lugares que estão incorporando a sustentabilidade a seus negócios de moda de maneira inspiradora?

Fletcher: No livro “Moda & Sustentabilidade”, escrito por mim e pela Lynda Grose, temos exemplos muito interessantes de trabalhos de empresas que estão usando essas idéias para inovar e mudar, em grande e pequena escala.

Costura: E a China? Será sempre um problema ou pode futuramente mudar seus padrões e vir a ser um exemplo para a indústria têxtil?

Fletcher: Essa é uma questão interessante. A escala e o ritmo de mudança na China são tais que quaisquer efeitos, positivos ou negativos, tendem a ser muito impactantes.

Costura: Em seu livro você destacou a importância do papel do design na transformação dos processos atuais da indústria têxtil. Que  tipo de profissional a moda sustentável precisa?

Fletcher: Precisa de alguém preparado para pensar em formas alternativas – e não apenas dentro das restrições do status quo.

Costura: Você conhece as marcas de moda do Brasil? Acredita que estamos no caminho?

Fletcher: O Brasil tem um interesse crescente na moda e na sustentabilidade. Aplaudo todos aqueles que trabalham para a integridade ecológica e justiça social. Bravo!

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